Qual é a sua?

terça-feira, agosto 03, 2010

Vestida de Mistério

De mim sei quase nada. Um pedaço de estrela cadente. Vivo em vertigens. Às vezes me assusto.
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Houve um dia em que falei pra Maria: eu te entrego meu coração. Ela fechou as pestanas para baixo, roseou as faces e cruzou as mãos no regaço, quase tímida. Fez um silêncio abissal. Senti um tremor na ponta da alma. Fiquei assim, molhado de aflição, até que ela ergueu o rosto e abriu os olhos repletos de noite estrelada: seu coração pertence só a mim, disse com voz de formigas segredando rotas. Mas eu não aceito o que me pertence enquanto você não vier inteiro.
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Senti uma pontada de agulhas nas costuras do espírito. Agasalhado pela confusão, dei um passo para dentro de mim, em busca do meu verdadeiro eu. Vi muitos cacos no caminho. Pelo avesso sou um quebra-cabeças disperso, sem uma peça encaixada na outra. Só por fora tenho essa aparência de inteireza.
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Perguntei a Maria, agarrado no toco do desespero, morrendo de medo dela esculpir uma verdade verduga: o que te faz assim desconfiada? Ela flamejou os olhos, ergueu o braço e cravou o dedo em minha consciência: seu ciúme! Homem que prende a mulher na fortaleza de cuidados excessivos e desnecessários, e põe vigias a desfilar pelas muradas, armados de pontiagudas desconfianças, não é nem senhor de si, nem senhor de mim. É vento sem direção. Borrifa mágoa por todos os poros. Oferece o coração e fuzila com os olhos, como se os sentimentos, absorvidos pelo vácuo, entrassem em ebulição, soltando a língua maledicente no pasto das inseguranças. Recolha as trevas de suas dúvidas e arme-se com o escudo da fé. Então, descobrirá a confiança e a fidelidade, que brotam do mesmo ramo.
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As palavras de Maria deram um nó em meu coração. Doeu uma dor surda, funda, aquela dor que não é ferimento, mas de quem não suporta a própria nudez entre quatro paredes. Foi então que descobri que os laços que me prendiam à Maria, eram, aos olhos dela, fortes amarras. Julgava que ela me pertencia tanto quanto o cavalo branco que, em noite de lua cheia, galopa no rumo do cume da montanha, à espera de que a lança se solte das mãos de São Jorge.
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Desde aquele dia, deixei de encarar as alianças como algemas. Entrecruzadas revelaram-se símbolos de infinito.
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Agora, já não ofereço o meu coração a Maria. Sei bem que o dela é meu e o meu é dela. Mas ela não sou eu e nem eu sou ela. O que ela é nunca vou saber ao todo, pois todas as vezes que os meus olhos se abrem em núpcias, Maria se apresenta vestida de mistério.
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