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terça-feira, julho 06, 2010

O Coquetel dos Gênios

E então, no meio daquele coquetel de inauguração de qualquer coisa, entre uma mulher que conta a novela e um homem que cita Peter Drucker*, fazendo o opossível para não ser visto pela grande senhora que há pouco o ameaçou com uma nova teoria de comunicação que traz escondida entre os seios, você procura alívio numa bandeja que passa. Confortai-me com canapés que desfaleço de banalidades.
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E pensar que aquela mesma espécie já dera tantos gênios. Compositores, pintores, escritores, pensadores... Se fosse possível reuní-los todos num imenso coquetel... que vitalidade! que brilho! principalmente, que conversa!
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Imaginemos que aqueles dois ali, em vez de serem um empresário notoriamente analfabeto e um político que fala português de anedota, fossem, digamos, Beethoven e Vincent van Gogh. Aproximemo-nos para ouvir o que dizem os gênios.
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Van Gogh aponta para um dos seus ouvidos.
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- Fala neste aqui que com o outro eu não escuto.
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E Beethoven:
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- Hein?
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- Fala no outro ouvido. Desse lado eu não escuto nada.
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- O quê?
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- Hein?
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- Como?
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- O outro ouvido! O outro ouvido!
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Está bem, não é um bom exemplo. O Picasso chegaria de bermudas, beliscando as mulheres. Também não serve. De repente bateriam à porta, o mordomo iria abrir e não veria ninguém. Fecharia a porta, intrigado, ouviria batidas outra vez, abriria de novo e então ouviria uma voz vindo de baixo:
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- Sou eu, seu filho de um cão sarnento com uma faxineira de Antuérpia!
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É Toulouse-Lautree, mal-humorado. Mais tarde Willian Faulkner, a caminho do seu décimo "bourbon", tropeçará nele e cairá ao comprido no tapete, aos pés de Oscar Wilde, que, girando seu absinto no copo, dirá:
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- Gosto de ter admiradores, mas isso é ridículo.
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- Aposto que eles ensaiaram isso antes - dirá Bernard Shaw para Sócrates, ao seu lado. Este olha com desconfiança para o copo que tem na mão.
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- O que será que estão me dando? - pergunta Sócrates.
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- Se não é scotch é porcaria - sentencia Shaw.
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- A última bebida que me deram era cicuta.
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O rosto de Shaw se ilumina com a deixa.
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- Cicuta, pra mim, é um veneno.
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Shaw sai de grupo em grupo para contar a própria frase, às gargalhadas, mas a repercussão não é boa. Kant e Vitor Hugo se desentenderam por alguma razão, trocaram insultos e o ambiente ficou pesado. E Wagner, martelando no piano com as duas mãos abertas, não está ajudando em nada. Beethoven é o único que não se incomoda. Van Gogh tapa uma orelha. Salvador Dali tapa os olhos para não ouvir.
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Ouve-se um grito de trás de uma porta fechada. A porta se abre e uma mulher seminua sai correndo. Minutos depois, pela mesma porta, aparece, ajeitando a gravata, o Marquês de Sade e explica:
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- Não é o que vocês estão pensando. Nós estávamos tendo uma discussão filosófica na cama e aí surgiu um hindu louco e puxou o lençol.
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Por trás do Marquês aparece Mahatma Ghandi, envolto no lençol e pedindo desculpas:
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- É que derramei Coca-Cola na minha outra roupa e...
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Hemingway, rodeado por simbolistas franceses e segurando o copo como uma granada, argumenta:
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- Eu (obscenidade) no leite do Simbolismo. Eu (obscenidade) no leite das proparoxítonas maricas.
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Aristóteles, que tem um copo de leite na mão, afasta-se prudentemente.
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Não, pensa você, mastigando um quadradinho de pão coberto com uma pasta vagamente marinha. Seria ótimo ouvir os gênios, mas um a um. Não num coquetel. Definitivamente, não num coquetel.
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*Economista austríaco, autor de livros revolucionários, sobre administração e gestão empresarial.

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