Qual é a sua?

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domingo, dezembro 02, 2007

Instruções para Cantar

Comece por quebrar os espelhos de sua casa, deixe cair os braços, olhe vagamente a parede, esqueça. Cante uma nota só, escute por dentro. Se ouvir (mas isto acontecerá muito depois) algo como uma paisagem afundada no medo, com fogueiras entre as pedras, com silhuetas seminuas de cócoras, acho que estará bem encaminhado, e do mesmo modo se ouvir um rio por onde descem barcos pintados de amarelo e preto, se ouvir um gosto de pão, um tato de dedos, uma sombra de cavalo.
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Depois compre cadernos de solfejo e uma casaca e por favor não cante pelo nariz e deixe Schumann em paz.
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Manual de Instruções in Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Instruções para Chorar

Deixando de lado os motivos, atenhamo-nos à maneira correta de chorar, entendendo por isto um choro que não penetre no escândalo, que não insulte o sorriso com sua semelhança desajeitada e paralela. O choro médio ou comum consiste numa contração geral do rosto e um som espasmódico acompanhado de lágrimas e muco, este no fim, pois o choro acaba no momento em que a gente se assoa energicamente.

Para chorar, dirija a imaginação a você mesmo, e se isto lhe for impossível por ter adquirido o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas e nesses golfos do estreito de Magalhães nos quais não entra ninguém, nunca.

Quando o choro chegar, você cobrirá o rosto com delicadeza, usando ambas as mãos com palma para dentro. As crianças chorarão esfregando a manga do casaco na cara, e de preferência num canto do quarto. Duração média do choro, três minutos.


Manual de Instruções in Histórias de Cronópios e de Famas, de Julio Cortázar.



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Não, Hiro não está praticando os ensinamentos. Se vocês olharem de perto, verão que faltam as lágrimas, ou o muco (se final de choro). Ele está apenas tentando se teleportar mais uma vez...

quinta-feira, novembro 15, 2007

O Jogo da Amarelinha, de Julio Cortázar

Acaso. Destino. Sorte. Fatalidade. É disso que trata O Jogo da Amarelinha. A narrativa começa no céu e acaba no inferno, principia no amor e termina na morte, quando não ao contrário. Tudo depende de por onde se entra e por onde se sai durante a leitura. Semelhante ao movimento dos móbiles, esse livro não tem um roteiro a ser seguido, mas vários, razão pela qual as personagens e situações se modificam de acordo com as escolhas que fazemos.
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Livro perigoso, que cativa pela insubordinação, pela valorização do comportamento desregrado, esse mesmo que parece já não caber mais em nossa sociedade.Muito já se escreveu sobre este livro, que foi sucesso imediato de público e de crítica ao ser lançado, em 1963. A qualidade mais destacada pelos comentaristas é sempre a multiplicidade de leituras que seu texto é capaz de proporcionar.
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O Jogo da Amarelinha é uma obra aberta, um romance que pode ser desmontado pelo leitor, que tem a liberdade poucas vezes concedida a alguém de refazer a seqüência de seus capítulos. "Um romance sangüíneo como o bebop", assim disse Cortázar e assim repetiram seus estudiosos mais ilustres. É claro que, como recomenda sua bula, posso ler seus 155 capítulos na ordem que preferir. Posso começar no de número 56, voltar para o de número 12 e depois correr para o de número 98. Cada combinação escolhida dá à trama e às personagens diferente colorido.
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Mas se O Jogo da Amarelinha não é a obra aberta perfeita para alguns, não deixa de sinalizar aos incautos que tomem cuidado onde pisam, pois o chão é movediço. No romance tradicional, os capítulos vêm unidos como os elos de uma corrente que nem mesmo a morte consegue separar. Isso é feito para que o tempo não se disperse. Para que nossa viagem através dos dias, meses e anos faça sentido. Todo o trabalho do autor vai por água abaixo, caso o leitor resolva ler o livro de trás pra frente, ou salteado. N’O Jogo da Amarelinha, cada capítulo é um objeto relativamente autônomo, cujo vínculo com os demais capítulos pode ser refeito ad infinitum. Os elos da corrente continuam a existir, e é isso que dá coesão à obra. Mas são elos adormecidos, que só entram em ação no momento em que o leitor avança na leitura. Aliás, o termo avançar, como se vê, já quer dizer aqui outra coisa: saltar do capítulo 82 para o 20 é o tipo de recuo que significará sempre um passo adiante. Conseqüentemente, o tempo se torna algo distinto do que vai nos nossos relógios, algo muito mais flexível e deliciosamente brilhante.
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Taí, espero que tenha despertado a curiosidade de alguns.
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Obs.: Pra chegar o mais perto possível da dinâmica do livro, usei o básico Ctrl C / Ctrl V de um texto de Nelson de Oliveira, que acho ser a apresentação/descrição que mais se assemelha à real.

Julio o quê?

Um dos escritores que faz absurdos com minha imaginação é Julio Cortázar. Sinto que preciso tê-lo em minha vida com cada vez mais constância. O cara tem a manha de escrever textos altamente visuais, daqueles que a cada frase lida, você consegue vislumbrar até a iluminação da cena. Ok, ok, confesso ter uma visão cinematográfica demais das coisas, mas basta um pequeno trecho para minha tese ganhar mais força.

"... y lo que llamamos amarnos fue quizá que yo estaba de pie delante de vos, con una flor amarilla en la mano, y vos sostenías dos velas verdes y el tiempo soplaba contra nuestras caras una lenta lluvia de renuncias y despedidas y tickets de metro."
 
 
(Sim, eu precisava colocar primeiro na língua original, tem uma sonoridade melhor, que já faz entrar no clima...)
 
 
"... e aquilo a que chamávamos o nosso amor era talvez eu estar de pé diante de você, com uma flor amarela na mão e você com duas velas verdes, enquanto o tempo soprava contra os nossos rostos uma lenta chuva de renúncias e de despedidas e passagens de metrô."


Uma de minhas mortes escolhidas é lendo um texto dele... Júlio Cortázar, uma dessas faltas que a gente sente daquilo que nem viveu...



Obs.: Trecho retirado de O Jogo da Amarelinha (e/ou Rayuela, no original)..
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