Qual é a sua?

sexta-feira, abril 01, 2011

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Eu não sei como ele espirra ou como é que ele coça a barba quando está crescendo. Eu não sei qual é o cheiro de suas têmporas, nem em quantos segundos ele vira um copo com água. Se pára na metade do copo para respirar. E, se pára na metade, se coloca o copo de volta na pia. E, se coloca de volta o copo na pia, se me comeria ali mesmo, antes do segundo gole, se por acaso eu me enfiasse entre ele e a pia, entre ele e o copo, entre ele e a sede, entre ele e a fome. São coisas que eu nunca soube a seu respeito. Mas, todos os dias, ele é comido pelo meu desejo. Não é um desejo de pulsos, joelhos, cotovelos. É um desejo encefálico que se transfigura em fálico. É a sua inteligência que eu tenho vontade de chupar para dentro da minha. O que eu sei a seu respeito é só um pedaço de ombro, braço, rosto e pescoço. E é esse pedaço que eu desejo. Existem olhos que não são quaisquer olhos e são esses que estou indo encontrar. Existem olhos que são úmidos de oceano e eu aqui, olhando o nada. Nessa poltrona que eu olho os meus olhos não encostam, eles atravessam o tecido, sem rasgar ou ferir, eles atravessam o céu sem perfurar estrelas fincadas.
.Deve ser nessa hora, quando o nosso olhar se perde, que enxergamos a morte. A morte o tempo todo nos rondando, uma fera que se alimenta dos restos de segundos que largamos para trás, para que assim ela aceite não nos matar. É a vida quem alimenta a morte até o segundo insustentável. Eu não sei em quantos segundos a morte vira um copo de água ou se ela me comeria ali mesmo em orgasmos agudos que me dóem por dentro da vida.
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E quando eu olhar nos olhos dele? E quando eu tirar a máquina de suas mãos, com urgência, a sua roupa, o seu medo, beijar a sua boca, a morte nos rondando, engolindo os nossos segundos e arrotando todo esse tempo que estivemos longe, e quando eu puxar para perto e ele estiver por dentro, e quando eu tocar a sua língua com a minha e nascerem árvores de plástico como é que vai ser? Será que o mundo vai tampar os ouvidos. Será?

domingo, março 20, 2011


Se você tivesse chegado antes, eu não teria notado. Se demorasse um pouco mais, eu não teria esperado. Você anda acertando muita coisa, mesmo sem perceber. Você tem me ganhado nos detalhes e aposto que nem desconfia. Mas já que você chegou no momento certo, vou te pedir que fique.
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segunda-feira, março 14, 2011

domingo, março 13, 2011

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Domingo ela acordava mais cedo para ficar mais tempo sem fazer nada.
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quinta-feira, março 10, 2011

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Há livros que marcam gerações. "O Lobo da Estepe", de Herman Hesse é um deles. Pertence ao imaginário de milhares de pessoas que viajaram por suas páginas, vivendo a descoberta e valorização desse tipo humano, o lobo, que se recusa a se submeter às normas socialmente determinadas, e precisa descobrir seus próprios caminhos para se conhecer e ser feliz.
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Fica a dica!
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quarta-feira, março 09, 2011

terça-feira, março 08, 2011

de quando a gente some do mapa

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sem celular. sem internet. com pouca luz. a milhas e milhas de qualquer lugar. onde ainda ouvimos o canto dos pássaros. onde não existem grades. lá tudo é livre. tudo é natural. tudo é verde. tudo é belo! é daqueles lugares de encher os olhos, sabe?
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de lá trouxe sorrisos para o resto dos meus dias. a felicidade já transborda. enche meu coração de lantejoulas e bolhas de sabão. e eu adoro!
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as dores calaram e, com certeza, a previsão não é de chuva.
isso sim, é passar um carnaval feliz.
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domingo, fevereiro 20, 2011

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Você pode ter atrasado o seu relógio em 1 hora. Mas a segunda-feira vai chegar de qualquer forma.
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terça-feira, fevereiro 15, 2011



Talvez eu esteja tentando construir uma ponte mais sólida entre mim e as pessoas porque preciso me comunicar para sair do isolamento onde me enfiei para me proteger,

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ora, da solidão!

Escrevo contra a solidão...

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Eu sou sim, a pessoa que some, que surta, que vai embora, que aparece do nada, que fica porque quer, que odeia a falta de oxigênio das obrigações, que encurta uma conversa besta, que estende um bom drama, que diz o que ninguém espera e salva uma noite, que estraga uma semana só pelo prazer de ser má e tirar a cobranças do meu peito. Que acha todo mundo feio, meio bobo, meio burro, meio perdido, meio sem alma, meio de plástico, meia bomba. E espera impaciente ser salva por uma metade meio interessante que me tire finalmente essa sensação de perna manca quando ando sozinha por aí, maldizendo a tudo e a todos. Eu só queria ser legal, ser boa, ser leve. Mas dá realmente pra ser assim?
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segunda-feira, fevereiro 14, 2011

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A vida anda tão boa e tão tranquila. Se eu conseguisse resumir esse sentimento, diria que ele é inversamente proporcional aos julgamentos rasos, esses que podemos disparar com tanta facilidade e azedume.
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Parece que, ao contrário, quanto mais eu tento compreender as pessoas, num exercício cotidiano de aproximação e humildade, mais eu me sinto feliz. Com elas e comigo mesma.
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domingo, fevereiro 06, 2011

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O som despejava um jazz invisível e inofensivo como brisa.
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segunda-feira, janeiro 24, 2011

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Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou se entender não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então eu troco o meu amor por um punhado de boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si nem ao outro.
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Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava deveria existir em algum lugar do planeta. Nem que fosse apenas dentro de mim... Mesmo se ele não existisse em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construí-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas nas quais eu acredito, o mundo seria sim, bonito e doce, o mundo seria cheio de amor, e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, qualquer coisa para ocupar o tempo, um banco de almofadas coloridas, e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é obanco do nosso amor, nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a não sei quantos anos, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas.
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No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saúdável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí alguém pra encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha escrita será uma grande mentira, as minhas histórias serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote. E a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho que ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os nossos bonecos que foram nossos amigos um dia.
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Agora em silêncio, ensinando dragões a nadar.
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quarta-feira, janeiro 19, 2011



Hora de deixar ir. Alguém precisa mais do que você.

Se livrar. Deixar pra trás. Algumas coisas não servem mais.

Você sabe. Chega.

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sexta-feira, janeiro 14, 2011

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Apenas já não somos mais crianças e desaprendemos a cantar. As cartas continuam queimando. Eu tentei pensar em Deus. Mas Deus morreu faz muito tempo. Talvez se tenha ido junto com o sol, com o calor. Pensei que talvez o sol, o calor e Deus pudessem voltar de repente, no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. Mas eles não voltarão. Seria bonito, e as coisas bonitas já não acontecem mais.
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à memória de Hórus

sexta-feira, janeiro 07, 2011

Cansei!

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Cansei de quem gosta como se gostar fosse mais uma ferramenta de marketing. Gostar aos poucos, gostar analisando, gostar duas vezes por semana, gostar até as duas e dezoito. Cansei de gente que gosta como pensa que é certo gostar. Gostar é essa besta desenfreada mesmo. E não tem pensar. E arrepia o corpo inteiro, mas você não sabe se é defesa para recuar ou atacar. Eu eu gosto de você porque gostar não faz sentido.
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Permita-se. Se você acha que no fundo mesmo, apesar de todas essas reuniões e palavras em inglês que só querem dizer que você não sabe o que está falando, o que importa é ter pra quem mostrar que saiu o arco-íris. Permita-se. Porque eu não quero que você tenha essa pressa ao ponto de ajudar com as próprias mãos. Eu quero que você sinta esse prazer que chega aos poucos. E mata tudo que há em volta. E explode os relógios. E chega aos poucos ainda que você ainda não saiba nem quem é pouco e nem quem é lento. Porque você morre. Se você prefere a vida quando se morre um pouco por alguém. permita-se.
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Eu não faço a menor idéia de como esperar você me querer. porque se eu esperar, talvez eu não te queira mais.
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Eu não queria ir embora e esperar o dia seguinte. porque cansei dessa gente que manda ter mais calma. E me diz que sempre tem outro dia. E me diz que eu não posso esperar nada de ninguém. E me diz que eu preciso de uma camisa de força. Se você puder sofrer comigo a loucura que é estar vivo. se você puder passar a noite em claro comigo de tanta vontade de viver esse dia sem esperar o outro, se você puder esquecer a camisa de força e me enroscar no seu corpo para que duas forças loucas tragam algum equilíbrio. Se você puder ser alguém de quem se espera algo, afinal, é uma grande mentira viver sozinho, permita-se. Eu só queria alguém pra vencer comigo esses dias terrivelmente chatos.”
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Esse post é para a outra ponta da minha conexão... A.
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quarta-feira, janeiro 05, 2011

do futebol

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Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pelos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham os seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.
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sexta-feira, dezembro 31, 2010

A última do ano

Quando pequeno, a última colher de comida nunca era a última. Percebe-se que era no máximo a antepenúltima. A última colher não existe. Uma forma de convencer a criança a mastigar a contragosto. Uma forma de persuadir que é o fim para chegar ao fim. É uma das primeiras mentiras involuntárias dos pais, decorrente da generosidade de ajudar. A última colher deveria significar que é "para valer", mas identifica-se em seguida que não vale nada e a papinha continua insistindo em entrar. A partir desse momento, o último passa a criar o gosto de não ser o último. Entende-se o último como algo que não acontecerá. O último - na verdade - é um começo disfarçado. O último amor. Não há como declarar taxativamente o último amor, porque o desejo admira a incoerência, a contradição, o ciúme. Como já ouvi gente, depois de uma desastrada separação, afirmando que não amaria mais e está hoje no terceiro casamento. Talvez tenha sido último amor naquele dia. Não se termina nada: amizade, livro, filme, casamento. Fica inacabado, adormecido, avulso. Temos a incapacidade natural de findar qualquer coisa. Quem pensa que terminou a relação, como se terminar a relação fosse mérito de quem disse primeiro, apenas adiou seu final. Haverá uma gaveta para colocar o que não se concluiu, um armário para esconder o que não serve mais, uma garagem para o imprestável até o momento. Não conheço sucata que não atenda alguma emergência. O último é somente um início mais convicto, em voz alta. De igual modo, um minutinho é uma hora, um momento é uma eternidade. O último cigarro, por exemplo, é a ladainha do anti-social, que avisa os amigos que está parando, faz um carro de som de sua abnegação e não larga o vício. Encontra logo um problema para justificar a retomada. Num bar, a situação é a mesma. A última cerveja não será a última, a saideira se repete tantas vezes como as colheradas na boca da criança. O último é um fundo falso. Os pais replicam ao filho que é a última vez e não é a última vez. Facilmente desistem da despedida. É a última vez que levará o filho ao restaurante. É a última vez que vai à praça. É sempre a última vez e a criança entende que amanhã voltará tudo ao normal. Na hora de escutar o "último" o ideal é pensar "de novo".

domingo, dezembro 26, 2010

Com cópia em papel carbono

Identificaram os seguintes itens na memória de um homem de idade indefinida, morador solitário da Rua do Arvoredo, em letra datilografada numa Olivetti verde, com fita vermelha e preta. Uma por uma das peças e pequenos fósseis foram retirados de suas lembranças. Havia mais de cem pedras obstruindo a vesícula da memória.
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Kichute. Vinil. Creolina. Mimeógrafo. Placar. Corcel II. Carpim. Eslaque. Laquê. Bilboquê. Bambolê. Marcha no guidão. Groselha. Ki-suco. Vendedor de Mirador. Perdidos no espaço. Jeannie é um gênio. Elo Perdido. Terra de Gigantes. Daniel Boom. Figueroa. Túnel do Tempo. Fitipaldi. Pampa Safari. Escaler. 14 Bis. Secos e Molhados. Revista Manchete. Futebol cards. Bolita. Pegador de armazém. Balança de pinos. Sete belos. Funda. Sapato de bico. Boca de sino. Chacrina. Gretchen. Bolinha. Saramandaia. Irmãos Coragem. Bigode. Paulo César Pereio. Mad. Maricas. Dona Flor e seus dois maridos. Pink Floyd. Corneta do Rintintin. Lassie. Bolachas Maria. Guimba. Fralda de pano. Auxílio à lista. Dancin'Days. Discoteca. Meretriz. Sofá-cama. Beliche. Loção pós-barba. Ceasa. Herbie. Fusca. Opala. Ilha do paraíso. Love story. Nescau. Regina Duarte. Cruzeiro. Fiado. Lampião. Minancora. Babados. Mequetrefes. Grega. Abrigo Adidas. Balela. Disco. Caldo de cana. Mandiopã. Coelho Ricochete. Reunião dançante. Hanna & Barbera. Cueca virada. Bolinho de chuva. Pipoca com mel. Cuba libre. Cartilha. Caderno de caligrafia. Globo de espelhos. Supercine. Papel de parede. O céu é o limite. Jota Silvestre. Flavio Cavalcante. Escrava Isaura. Sobrancelhas raspadas. Peruca. Playmobil. Meias de lurex. Cuecão. Drive in. Polaroid. Santinhos. Corner. Pelota. Tiro de canto. Cinto para emagrecer. Pulseiras magnéticas. Magnésio. Cestas de natal. Caloi. Estação férrea. Prostíbulo. Curetagem. Sacristão. Coroinha. Felação. Arena. Venezianas. Vidro fumê. Óculos Ray Ban. Estilingue. Abluções. Chaco. Mercúrio Cromo. Panacéia. Casquinha. Amolador. Sal de frutas. Bolo inglês. Morfina.
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Mesmo lavrado em cartório, o homem precisou de um tradutor para dar sentido ao que recordava. Usava suspensório. Guardava a dentadura de alguém no copo de requeijão. O relógio da parede da cozinha não acompanhava o horário de verão, dando sinais de subversão. Uma cobiçada reprodução da Última Ceia estava fixada com durex no corredor azul. Muitos vocábulos saltavam sublinhados. Ele era um dicionário aleatório. Verbete sem sinônimo e esposa. Reduzido pela rua, se considerava perseguido pela língua, minoria nas palavras cruzadas. Suas fotos não tinham rascunhos. Não deixou herdeiros. As datas apareciam borradas. Costumes foram umedecendo no papel de presente dos cadernos e do fundo das gavetas. Era o que não voltou. Tudo o que escrevia fazia em papel carbono. Ele se dizia consumido.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Cartinha para o Papai Noel

Querido Papai Noel.
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Eu não acredito no senhor e, dadas as circunstâncias dos últimos anos, nem no espírito natalino eu acredito muito, mas como é moda mandar cartinha pro senhor, vou virar subversiva e vou seguir a moda.
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Esse ano foi melhor que o ano passado, fato. Em alguns aspectos. Eu não magoei tanta gente esse ano, mas quem eu magoei me fez querer arrancar meu coração fora e sair por aí o chutando. Mas, em contrapartida, fui uma boa menina. Não voltei pra faculdade, apesar de não estar mais indecisa em relação ao curso, voltei a morar sozinha, comecei uma dieta e estou seguindo-a.
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Eu falei muita coisa que não devia, fui a lugares que não devia e fiz coisas que não devia, mas todo mundo tem o direito de cometer erros, né?! Eu juro que em 2010 só cometi erros novos, não repeti os antigos.
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Por isso, senhor Natalino, eu gostaria muito de ganhar a mega-sena de final de ano. Brinks Noel.
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Eu quero um pouco mais de paciência, que o senhor exorcize a preguiça do meu corpo, que não me deixe sucumbir à gula e à luxúria (essa última pode deixar de lado, se já estiver pedindo demais), e que eu fique só um pouco avarenta, porque eu gastei demais nos últimos tempos.
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É isso, Noel. Eu sei que não vai adiantar merda nenhuma, mas o pedido está feito.
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Beijos!
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quinta-feira, dezembro 23, 2010

Esse verão

O poeta espanhol Góngora escreveu seus sonetos e fábulas sob o inferno implacável de 40º. Sua poesia pode ser comparada à insolação. Profusão de imagens e febre alta da linguagem. "Compassiva erva, encomendada:/ sorva, enrugada se do feno em meio;/ a pera, de que foi cuna dourada/ a ruiva palha e - pálida tutora -/ a nega avara e, larga, de ouro a cora." Entendeste? É muita volta na quadra. Parece que o autor suspende a conclusão de um verso e somente o retoma três anos depois. O calor colabora para o delírio. Difícil se expressar na asfixia, com o pescoço prensado pela luz. Perde-se a vontade de falar. Fica-se inanimado, uma pedra carregando pedras. O vento que passa não alivia o impacto da claridade. Sádico, surge para ofender com seu bafo de bêbado. O suor assume a incidência de álcool. Deixa-se o banho e já estamos prontos para um outro. Sem praia, a estação é um beco sem saída. O tempo custa a passar. A noite queima as pilhas das estrelas. Tudo é esperança de chuva. Minha mãe me telefona todo dia para dizer que a chuva não veio. O calor transforma os sábios em loucos, os equilibrados em histéricos, a fé em resignação. A ardência dos olhos faz a gente andar de boca aberta. Caminha-se numa esteira de idéias fixas. A barba e os pêlos crescem rápido. A pele retorna à adolescência, com brotoejas, manchas e espinhas. As lâmpadas queimam em sincronia. Descobre-se que o ar-condicionado precisa de limpeza. As crianças emagrecem o rosto. Os sons sobem de altura. É a estação em que se define verdadeiramente quantos cães existem no bairro. Conta-se os cachorros para não dormir. O barulho da piscina está no vizinho. Ninguém consegue terminar uma conversa. A respiração se enfraquece em suspiro. Bocejar é uma prática extenuante para se alcançar nesta época. O carro é uma sauna mista. Não adianta fechar a janela. De carona, leva-se a fumaça irritante do sol. Os casais cansam de brigar. A briga fica reservada para as moscas na cozinha e os mosquitos no quarto.

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Ao menos uma vez...

Não acredito em quem confia demasiado em si. Quem nunca extravia a conversa, o jeito da vida, o sentido. Quem nunca se duvida antes de rezar. Quem nunca reza para se distanciar. Quem nunca desistiu de procurar termos no dicionário. Quem nunca se endivida antes do salário. Quem nunca perdeu uma amizade por uma palavra a mais, um amor por uma palavra a menos, uma leitura pela falta de insistência. Não perdeu o emprego, não perdeu um parente, não perdeu a paternidade de si mesmo. Não acredito em quem fala dos outros com convicção, com domínio e técnica, com destreza de faca e agulha. Não acredito em quem não se critica, não se perdoa, não volta atrás. Não acredito em que se julga maior do que a própria vida e se submete às comparações para subir a estima. Não acredito em quem não consulta a meteorologia para apenas constatar que não choveu na noite seguinte. Não acredito em quem enxerga a literatura como uma religião, os livros como mais importantes do que os filhos, os autores como deuses inquestionáveis. Não acredito em quem não se encolheu ferido, derrotado, acuado, mínimo. Não acredito em quem não tem fé para atravessar o rio a nado. Não acredito em quem não considera a possibilidade de fracasso. Não acredito em quem não lê os obituários na velhice. Não acredito em quem não revê suas fotos para se espalhar. Não acredito em quem capricha na letra. Não acredito em quem não modifica sua infância ao avançar. Não acredito em quem não esquece a data ao preencher o cheque. Não acredito em quem ultrapassa o sinal fechado sem medo. Não acredito que o submisso no trabalho não é estourado em família e que o estourado no trabalho não é manso em casa. Não acredito em quem não recusa ao menos três frutas antes de escolher. Não acredito nas verdades que não são mastigadas em silêncio, na arrogância que fala com a boca cheia. Não acredito em quem não se sente culpado pelo excesso de trabalho. Não acredito em quem não se sente culpado pelo excesso de família. Não acredito em quem não passa numa praça ensolarada sem querer sentar. Não acredito em quem não vacila, não se desespera, não prensa o pulmão contra a parede de um relógio. Não acredito em quem professa ensinamentos com indiferença. Não acredito em quem mendiga culpados para sua raiva. Não acredito em quem usa chapéus dentro de casa. Não acredito em quem não foi deserdado em algum momento e fez das ruínas seu começo e seu final. Não acredito na literatura que não seja desconfiança. Não acredito que o desejo possa se repetir. Não acredito em quem não tem receio da morte. Não acredito, confesso que não acredito muitas vezes por dia.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

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"Wikileaks revela segredos de festas de fim de ano."
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Assustou, hein?!
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segunda-feira, dezembro 06, 2010

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Tenho a impressão que a Simone passa onze meses do ano trancada numa solitária e sai em dezembro cantando música de natal.
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=S
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quarta-feira, novembro 10, 2010

Na fé, eu sou capaz de me dizer, com amorosa humildade, que grande parte das vezes eu não sei o que é melhor para mim. Eu não sei, mas segundo dizem, Deus sabe. Eu não sei, mas minha alma sabe. Então, faço o que me cabe e entrego, mesmo quando, por força do hábito, eu ainda dê uma provocadinha em Deus e lhe diga: “Tomara que as nossas vontades coincidam”. Faço o que me cabe e confio que aquilo que acontecer, seja lá o que for, com certeza será o melhor, mesmo que algumas vezes, de cara, eu não consiga entender.
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